O cidadão tinha todas as características necessárias ao “171”: cabelo cortado, barba bem feita, terno e gravata, a simpatia e a capacidade de se expressar. Como se sabe, o ramo do estelionato tem vários segmentos, e o do personagem em questão, quando foi devidamente grampeado, era a venda de carteiras para motoristas.

A detenção ocorreu no conhecido edifício “De Paoli”, no centro do Rio, onde mantinha o seu negócio, sob a fachada de “Doutor Aristóbulo – Advogado para Causas Cíveis”. Ao ser apresentado pela 3ª DP, no entanto, já havia sido identificado pelo nome verdadeiro, e pela alcunha de “Tinhoso”, com a qual praticara vários golpes no interior do Estado. No, digamos, escritório, também foi detido o seu “meio sócio”, conhecido como “Mata Rindo”, apelido que ganhou por sua simplicidade em executar quem atrapalhava as suas transações.

A dupla tinha personalidades distintas. “Tinhoso”, extrovertido, esforçava-se para contar histórias que pudessem justificar as falcatruas, e o colega, fechadão, monossilábico mesmo, fazia questão de manter a fama de mau. Quando o delegado puxou o telex com as informações sobre a chamada vida pregressa dos dois, a papelada cobriu a sua mesa.

A área de ação de “Tinhoso” era na região noroeste, Bom Jesus do Itabapoana, Itaocara, Itaperuna, Miracema, Natividade, São Antônio do Pádua, longe do Rio. Em dado momento, já bem visado por lá, resolveu oferecer os seus serviços na capital. “Mata Rindo”, com anotações pesadas na ficha, assaltos a bancos e homicídios, e dado o seu alto grau de periculosidade, foi rapidamente levado para uma tranca mais segura, o Ary Franco, único presídio da cidade, naquela época.

Assim, restou o “Doutor Aristóbulo”, que colecionava somente entradas por vadiagem, comuns naquela época, e duas condenações por receptação, uma delas já paga. Ele não se furtou a conceder entrevista, ressaltando que “como advogado” sabia da necessidade de iniciar a sua defesa “antes que o inquérito fosse remetido à Justiça carregado de equívocos”.

Disse que conheceu o seu cara-metade já no Rio, quando começou a fazer “o trabalho de campo para abrir o escritório”, e que decidiu abraçar a venda de carteiras para motoristas porque o colega o convenceu de tratar de “atividade de pouco investimento e de lucro farto, se bem gerida, é claro”.

Daí em diante, o cidadão passou a contar como operava. “O Mata tinha contatos no Detran. De lá trazia os espelhos. Eu acrescentava o prontuário frio e a assinatura do diretor do órgão. Mas, veja bem, só fornecia para pessoas que me provavam a capacidade para dirigir. Não sou irresponsável ou louco de entregar um documento desses na mão de qualquer um. Marcava um lugar, o comprador aparecia, dava uma volta no carro, e aí sim, eu o considerava capacitado para conduzir um veículo”.

Instado a responder se tinha de fato a capacidade para fazer o papel de examinador, e se chegou a reprovar algum candidato, não pensou duas vezes. “Não há mistério. Você nota logo quando a criatura está nervosa, insegura, fica apavorada com a aproximação de caminhão e de ônibus. Houve uma mulher, tinha uns cinqüenta anos, que julguei inapta. Vai que depois ela se envolve num acidente grave, e descobrem que a carteira era falsa, quem entraria pelo cano seria eu, correto? Reprovei”.

O consciente e precavido “Doutor Aristóbulo”, ou “Tinhoso”, explicou também que foi embora da região noroeste do Estado porque começou a ser “perseguido pela Máfia”. “O que eu fazia ali era atravessar automóveis, principalmente para Minas, dois ou três por mês, no máximo. Não era necessariamente um profissional do negócio. Mas aí um dia os italianos vieram me dizer que eu estava me intrometendo no metiê deles. Os caras são barra pesada. Encerrei as atividades no interior e me estabeleci no Rio. Mudei de ramo. Mas mesmo assim acho que me deduraram. E agora estou aqui, tentando mostrar que não fazia mal à ninguém. Vamos ver o que acontece”. Na sequência, foi levado ao xadrez.

O interessante é que meses depois, quando já cuidava da cobertura diária do Palácio da Justiça para o JB, este que vos escreve encontrou “Tinhoso” por lá, respondendo em liberdade ao processo numa vara criminal. Aguardava a sentença para breve. E tinha fé na sua absolvição. “Ou numa pena leve, de acordo com o delito primário que cometi”, disse. Parece que a Máfia, ora vejam, se esquecera dele…

Curioso como qualquer repórter, tempos depois passei pelo cartório e soube que ele havia sido condenado a dois anos, com sursis, ou seja, permaneceria livre. Um bom advogado, com certeza, conseguiu convencer a Justiça que “Tinhoso” não era tão mau assim para a sociedade.