Em 1994, como redator do caderno de Esportes do Jornal do Brasil, recebi a tarefa de escrever todos os domingos sobre cada uma das 24 seleções classificadas para a Copa do Mundo daquele ano. Teria que publicar também uma entrevista com alguma figura importante das equipes, de preferência os seus técnicos, notadamente quando fossem efetivamente conhecidos.

A única ferramenta capaz de estabelecer contato com as pessoas era o telefone. Chegou a vez da República da Irlanda. O destaque do Eire – naquele tempo o país ainda tinha esse nome no Brasil – era o técnico Jack Charlton, ex-zagueiro inglês, há quase 10 anos no cargo.

Naquele mês de abril, quase um quarto de século, o time conhecido como “The Boys in Green” faria um amistoso contra a Holanda, na pequena cidade de Tilburg. Solicitei a uma agência de turismo os números dos principais hotéis locais, que eram quatro, e telefonei, perguntando se a seleção irlandesa estava hospedada por lá. Diante da resposta afirmativa, logo na segunda ligação, me identifiquei como “um jornalista próximo de Mister Charlton”, e perguntei se poderia falar com a figura.

Não costuma ser muito comum acontecer, mas a moça que atendeu ligou direto para o quarto dele, e em segundos ouvi aquela voz de trovão, de inconfundível sotaque britânico. “Alô, bom dia, Jack ao aparelho, quem me procura?”. Eram cinco da manhã no Rio, e logo, oito na Holanda. Liguei cedo assim porque precisava pegá-lo antes da turma sair dos quartos. Expliquei que era um jornalista brasileiro, e para agradá-lo, jurei que seria sobretudo uma honra entrevistar um cidadão do mundo.

Para a minha surpresa, ele agradeceu de maneira gentil, mas exclamou em seguida, sem a nenhuma cerimônia. “O problema, agora, é que estou no banheiro, sussurrou algo como “very hard”, e disse que deveria demorar uns 20 minutos. “Ao fim, no entanto, terei prazer em atendê-lo. Assim, me ligue em meia hora, que estarei aguardando”, prometeu. “Ok, muito obrigado, assim farei”, devolvi.

Caí na gargalhada, E naquela meia hora, imaginei Mister Charlton, quase dois metros de altura, Cavaleiro da Ordem do Império Britânico, campeão mundial em 1966, sentadão nu no vaso, branco como um fantasma, quem sabe até suando frio, fazendo uma força extraordinária para expelir o jantar da noite anterior.

E concluí que numa hora dessas não há qualquer diferença entre um ser humano de classe média de um país colonizado, como eu, e um nobre súdito de Elizabeth II, condecorado pela própria, Her Majesty, The Queen. Após a breve meditação, telefonei novamente para a pequena Tilburg. Pois seu ilustre hóspede parecia tão aliviado que chegou a brincar comigo, ao atender, se identificando como “Mister Giraffe”, seu apelido no futebol, por causa da altura, e do pescoço comprido, é claro.

A entrevista foi ótima. No fim, mandei “congratulations” para seu irmão Bobby, e disse que quando viesse ao Brasil me procurasse, pois não mediria esforços para mostra-lhe as misérias do Terceiro Mundo. Ele riu, agradeceu, deu “bye bye”, e desligou, confirmando a postura sempre elegante dos britânicos.

Quanto ao amistoso, “The Boys in Green” venceram a Holanda por 1 a 0. Mas isso não teve a menor importância.