Todo repórter que fez a cobertura do cotidiano da cidade acompanhou em alguma ocasião uma inspeção da Vigilância Sanitária em bares e restaurantes. Como o proprietário sabe que o frequentador não vai se interessar pelo que se passa nos bastidores dos estabelecimentos, notadamente na cozinha, há quase sempre um desleixo em relação ao que vai além do salão. As visitas ocorrem habitualmente fora dos horários de funcionamento, e é claro, sem aviso prévio, pois o objetivo é surpreender, o que eventualmente acontece, por descuido geral.

Este que vos escreve acompanhou a visita dos inspetores em seis restaurantes considerados de primeira linha, na manhã de um dia útil, e teve a oportunidade de conhecer a dura realidade. Não vamos descrever aqui a atuação dos fiscais em cada um deles, pois seria deveras cansativo, mas afirmar que todos os lugares apresentavam diversas irregularidades, algumas assustadoras, que seriam suficientes para desencorajar qualquer comensal. As mais comuns: boa quantidade de alimentos com data de validade vencida, mau cheiro decorrente de lixo acumulado, ventilação inadequada, fiação exposta, umidade aparente, equipamentos bastante precários, bueiros sem proteção, funcionários sem roupas apropriadas e falta de asseio nos vestiários.

Pois um dos restaurantes mais tradicionais do Rio, frequentado pela alta roda e por pessoas influentes, frequentemente citado nas colunas sociais de então, tinha nome francês, e ficava na Praça do Lido, em Copacabana. Os inspetores chegaram por volta das 10 horas da manhã. Dois empregados limpavam o salão. Um deles tratou rapidamente de telefonar para o proprietário. E outro, que cuidava da cozinha, não teve tempo para tomar qualquer providência.

A primeira visão é inesquecível: francesinhas alpinistas escalavam uma parede, varejeiras pousavam sobre um pote gigante de manteiga, e simpáticos mosquitinhos sobrevoavam acima de uma lixeira, animados com a perspectiva de um suculento almoço. Forte odor exalava de um ralo aberto. O cozinheiro, com uma camiseta bem sujinha, tentava justificar o ambiente, alegando que “de manhã é assim mesmo, depois a gente faz a limpeza geral”. Havia um panelão cheio de batata descascada, com vários fios de cabelo, pretos e grossos, de seres humanos, é claro. E eis que em dado momento, duas baratas com MBA em Harvard, já crescidas e vividas, quem sabe incomodadas com o barulho – afinal ainda era de manhã – surgiram do nada, para completar o quadro de horror.

Quem ia ali arrumadinho e cheiroso, falando de Londres, Nova York e Paris, para degustar aquele filezinho cheio de bossa, não poderia imaginar que dividia o prato com essa turma. O proprietário chegou mais tarde, com muitas explicações na ponta da língua, mas todas inúteis, diante de tanto descaso. E recebeu multa pesada. Nada muito diferente disso foi encontrado nos demais restaurantes. Num deles, pizzas empilhadas, prontas para o forno, estavam encostadas numa parede cheia de mofo. No outro, bichinhos não identificados se misturavam ao arroz. Num terceiro, frutas diversas apodreciam num canto. E por aí vai.

Pior é saber que hoje, mais de 30 anos depois, a situação não é muito diferente, pois como naquela época, a quantidade de fiscais continua sendo insuficiente. Coisas do Terceiro Mundo. A propósito, que tal sair mais tarde para jantar fora?