FAZ 50 ANOS QUE FLA VENCEU CAMPEÃO MUNDIAL E GANHOU O MOHAMMED V

Faz 50 anos que o Flamengo conquistou o Troféu Mohammed V, disputado em dois dias, 31 de agosto e 1º de setembro, em Casablanca, no norte da África, maior centro econômico do Marrocos, famoso pelo filme de nome homônimo de 1942, com Humphrey Bogart e Ingrid Bergman.

O Rubro-Negro foi o único brasileiro a ganhar o torneio, realizado de 1962 a 1980, com a presença de grandes clubes de todo o mundo. A competição reuniu ainda o Forces Armées Royales, da capital Rabat, o Racing Avellaneda, da Argentina, e o Saint-Etiènne, da França.

Aqui um parêntese, para desfazer qualquer confusão: Mohammed bin Yusef, ou Mohammed V, foi rei do Marrocos de 1957, quando negociou a independência do país com o colonizador, a França, até a sua morte, em 26 de fevereiro de 1961. Seu filho, El Hassan bin Mohammed Alawi, ou Hassan II, o sucedeu, e permaneceu no trono até 23 de julho de 1999, quando faleceu, ocupando o trono, desde então, o seu primogênito, Mohammed VI.

A viagem foi costurada por Cacildo Oséas, empresário de futebol entre as décadas de 1950 e 1970, que organizava excursões de equipes brasileiras ao exterior, e negociava craques com clubes europeus. A delegação ficou no Hotel Royale El Mansour, que ainda está lá, no mesmo lugar.

O Flamengo estreou derrotando o FAR por 2 a 1. O time era treinado pelo francês Guy Cluseau, que na sequência liderou a classificação da seleção marroquina para Copa de 1970, no México. As estrelas locais eram o goleiro Allal Ben Kassou, o zagueiro Fadilli JiIlali, o apoiador Driss Bamous, e o atacante Hammadi Hamidouch.

Foi uma partida difícil, e a equipe carioca só conseguiu marcar o gol da vitória aos 40 minutos do segundo tempo, com Silva, o Batuta, maior ídolo do Flamengo naquela época. É importante destacar que Fio não esteve em campo, embora os jornais da época tenham incluído o atacante na escalação, pois havia sofrido uma fissura no dedo mínimo do pé esquerdo, que estava imobilizado.

De qualquer forma, vale lembrar um fato curioso da partida. No segundo tempo, quando o placar ainda era de 1 a 1, houve um lateral a favor do Rubro-Negro. Ele, Fio, que estava no banco, entregou a bola que tinha nas mãos a Paulo Henrique, que fez a cobrança rápida nos pés de Silva. O craque deu três passadas largas e bateu de fora da área, vencendo Ben Kassou. Mas o árbitro anulou o gol, atendendo a um aceno do Rei Hassan II, presente na Tribuna de Honra do estádio. Aos jogadores cariocas, no entanto, Boukili alegou que a partida não poderia ter prosseguido com a bola de fabricação brasileira.

É importante explicar que o jornalista oficial da delegação, Mílton Pinheiro, escreveu no Diário de Notícias que os dois gols do Flamengo foram marcados por Luiz Cláudio. No jogo principal, o Racing derrotou o Saint-Etiènne por 1 a 0.

No dia 1º de setembro, o Flamengo fez a finalíssima do Mohammed V com o Racing, dirigido por Juan José Pizzuti, atacante da seleção da Argentina ao longo de toda a década de 1950. O clube de Avellaneda, periferia de Buenos Aires, era o detentor dos títulos da Libertadores e do Mundial, que conquistara ao vencer o Celtic, da Escócia, campeão da Europa, por 1 a 0, em novembro de 1967.

O estádio Marcel Cerdan, atual Mohammed V, recebeu cerca de 30 mil torcedores, sua capacidade máxima na época. A jornada foi aberta com a vitória do Saint-Etiènne, cuja estrela era Michel Platini, por 2 a 0 sobre o FAR Rabat. No jogo principal, o time carioca sofreu um gol logo aos cinco minutos, de Cominelli, aproveitando cruzamento de Cardenas, mas empatou aos 14, com Luiz Cláudio, em falha de Cejas, aquele mesmo, que no ano seguinte seria companheiro de Pelé no Santos. Liminha fez 2 a 1 aos 23 da etapa final, num chute de fora da área, e ele, Silva, ampliou aos 30, após driblar Vilanova e Chabay. Aos 40, Salomone diminuiu, apanhando rebatida de Claudinei em petardo de Maschio. Mas a reação argentina parou por aí. Na disputa de terceiro e quarto lugares, o Saint-Etiènne ganhou do FAR Rabat por 2 a 0.

O Troféu Mohammed V, de ouro e prata, com cerca de um metro de altura, foi entregue por Hassan II ao capitão Paulo Henrique, ao som do hino marroquino. À noite, o rei ofereceu um banquete no Palácio de Habous para o FAR Rabat e as três delegações visitantes. O Flamengo voltou via Paris, viajando pela Air France, desembarcando no Rio no dia 3 de setembro, trazendo a taça, além dos 55 mil dólares pela participação no torneio. Cada jogador recebeu de prêmio em torno de NCr$ 2,5 mil – dois mil e quinhentos cruzeiros novos – o suficiente para comprar um carro nacional com dois ou três anos de uso.

Os tempos mudaram, sem dúvida, mas o Trophée Mohammed V, 50 anos depois, está na Gávea, para quem quiser conhecê-la.

 

FLAMENGO 2 x 1 FORCES ARMÉES ROYALES RABAT / MARROCOS

Data: Sábado, 31 de agosto de 1968.

Competição: VII Trophée Mohammed V / Semifinais.

Local: Estádio d’Honneur Marcel Cerdan, em Casablanca / Marrocos.

Jogo principal: Racing Avellaneda / Argentina 1 x 0 Saint-Etienne / França

Público: não divulgado.

Arbitragem: Salih Mohammed Boukili / Marrocos.

Gols: Liminha 15’, Mohammed Maaroufi 34’ e Silva 85’.

FLAMENGO: Claudinei, Murilo, Guilherme, Onça e Paulo Henrique; Carlinhos e Liminha; Néviton, Reyes, Silva e Rodrigues Neto. Técnico: Válter Miraglia Alves – Válter Miraglia.

FAR RABAT: Allal Ben Kassou, Hammadi Raghai, Bouchab Malhi, Fadilli Jilali e Benkhrif Boujamaa; Abdallah Lamrani e Mohammed Maaroufi; Abdelkader El Khiati, Driss Bamous, Hammadi Hamidouch e Mohammed Benabdelkader. Técnico: Guy Cluseau / França.

(*) Leia no texto sobre a autoria dos gols rubro-negros.

 

FLAMENGO 3 x 2 RACING AVELLANEDA / ARGENTINA

Data: Domingo, 1º de setembro de 1968.

Competição: VII Trophée Mohammed V / Decisão.

Local: Estádio d’Honneur Marcel Cerdan, em Casablanca / Marrocos.

Preliminar: Saint-Etienne / França 1 x 0 FAR Rabat / Marrocos.

Público: não divulgado.

Arbitragem: Abdelkrim Ziani / Marrocos.

Gols: Marcos Cominelli 5’, Luiz Cláudio 14’, Liminha 68’, Silva 75’ e Roberto Salomone 85’.

FLAMENGO: Claudinei, Murilo, Guilherme, Onça e Paulo Henrique; Cardosinho e Liminha; Luiz Cláudio, Diogo, Silva e Rodrigues Neto. Técnico: Válter Miraglia Alves – Válter Miraglia.

RACING AVELLANEDA: Agustín Cejas, Juan Díaz, Jorge Ginarte, Rodolfo Vilanova e Nélson Chabay; Juan Rulli (Enrique Wolff – intervalo) e Marcos Cominelli; Humberto Maschio (Jaime Martinoli 60’), Mario Norberto Chaldú, Juan Cardenas e Roberto Salomone. Técnico: Juan José Pizzuti.

 

# DELEGAÇÃO

– Chefe: Júlio Vilhena / vice de Finanças

– Presidente: Luiz Roberto Veiga de Brito

– Técnico: Válter Miraglia Alves

– Médico: Célio Cotecchia

– Preparador físico: José Roberto Francalacci

– Massagista: José Rodrigues – Zé do Galo

– Roupeiro: Aniceto da Silva

– Jornalista: Mílton Pinheiro / Diário de Notícias

 

– Convidados

– Dario de Mello Pinto / presidente do clube nos biênios 1943-44 e 1949-50

– Hans Goransson / filho do dirigente Gunnar Goransson, representante no Brasil da empresa multinacional Facit AB, a mais famosa fabricante de material de escritório do mundo, com sede em Atvidaberg, na Suécia

– Vitorino Vieira / integrante da Resenha Esportiva Facit, o programa de debates sobre futebol de maior audiência na televisão do Rio na década de 1960

 

# JOGADORES

Goleiros

– Claudinei (Claudinei Freire – São Paulo / SP, 16/3/38)

– Marco Aurélio (Marco Aurélio Saldanha da Rocha – São Paulo / SP, 10/12/40 – goleiro)

 

Laterais

– Murilo (Paulo Murilo Frederico Ferreira – Rio de Janeiro / RJ, 30/4/39 – zagueiro)

– Paulo Henrique (Paulo Henrique Souza de Oliveira – Macaé / RJ, 5/1/43 – zagueiro)

 

Zagueiros

– Guilherme (Guilherme de Oliveira – Rio de Janeiro / RJ, 4/12/40)

– Manicera (Jorge Carlos Manicera Fuentes – Montevidéu / Uruguai, 4/9/39)

– Onça (Mário Felipe Pedreira – Santa Luz / BA, 13/7/43 – zagueiro)

 

Apoiadores

– Carlinhos (Luiz Carlos Nunes da Silva – Rio de Janeiro / RJ, 19/11/37)

– Cardosinho (João Landulpho Cardoso – Santa Anastácia / SP, 21/1/47)

– Liminha (João Crevelim – Tietê / SP, 15/6/44)

– Luiz Cláudio (Luiz Cláudio – Itabirito / MG, 17/4/46)

– Reyes (Francisco Santiago Reyes Villalba – Assunção / Paraguai, 4/7/41)

– Rodrigues Neto (José Rodrigues Neto – Galiléia / MG, 1º/12/49)

 

Atacantes

– Diogo (Etelelba da Silva – Niterói / RJ, 15/3/48)

– Fio (João Batista de Salles – Conselheiro Pena / MG, 19/1/45)

– Néviton (Antônio Néviton do Carmo – Itaparica / BA, 8/6/42)

– Silva (Walter Machado da Silva – Ribeirão Preto / SP, 2/1/40)

– Zélio (Zélio Joaquim Machado – Niterói / RJ, 14/8/46)

 

OS CAMPEÕES DO TROPHÉE MOHAMMED V

1962 – Stade de Reims / França

1963 – Partizan Belgrado / Iugoslávia

1964 – Boca Juniors / Argentina

1965 – Atlético de Madrid / Espanha

1966 – Real Madrid / Espanha

1967 – CSKA Sofia / Bulgária (*)

1968 – Flamengo / Brasil

1969 – Barcelona / Espanha

1970 – Atlético de Madrid / Espanha

1972 – Bayern München / Alemanha

1974 – Peñarol / Uruguai

1975 – Dinamo Kiev / União Soviética (**)

1976 – Anderlecht / Bélgica

1977 – Seleção da Romênia

1979 – Wydad Athletic Club – Casablanca / Marrocos

1980 – Atlético de Madrid / Espanha

(*) Ruda Zvezda – Estrela Vermelha em português – é o apelido do Clube Esportivo Central do Exército, de Sofia, a capital da Bulgária, ou CSKA, forçando uma tradução do alfabeto local para o nosso idioma

(**) O Dinamo Kiev é o mais importante clube da Ucrânia, hoje país independente, mas que integrava, em 1975, o território da extinta União das Repúblicas Socialistas Soviéticas