Lá se vão quase 45 anos que o Flamengo não consegue vencer o Atlético em Curitiba em jogos válidos pelo Brasileiro. A última vitória, 2 a 1, aconteceu em 21 de abril de 1974, no estádio do Coritiba, o Couto Pereira, que ainda tinha o nome de Belfort Duarte.

O Brasil vivia sob a batuta do Ato Institucional número 5, a obra-prima do arbítrio militar, e o novo presidente da República, o general Ernesto Geisel, acabara de inaugurar a ponte ligando o Rio de Janeiro, ainda chamado de Guanabara, governada por Chagas Freitas, a Niterói, a capital do Estado do Rio, cujo manda-chuva, Raimundo Padilha, também chegara ao poder de forma indireta. Pelo asfalto da obra passavam as jóias do automobilismo nacional – Chevette, Corcel, Dodge Dart, Fusca, Galaxie, Maverick e Puma. A propósito, Emerson Fittipaldi caminhava para o seu segundo título mundial de Fórmula 1.

Os concursos de misses, exibidos pela TV, comoviam o país. As pornochanchadas arrastavam milhões aos cinemas. O Baile de Gala do Municipal era uma das grandes atrações do carnaval carioca, superado apenas pelo desfile das escolas de samba, que tinha lugar na Avenida Presidente Vargas. O Salgueiro ganhou em 1974 com Rei de França na Ilha da Assombração, revelando definitivamente o talento de Joãozinho Trinta. A atriz norte-americana Liza Minelli foi o centro das atenções no Rio, ao receber o cachê de 200 mil dólares para inaugurar o teatro do Hotel Nacional, jóia arquitetônica da cidade. A novela Fogo sobre Terra, de Janete Clair, direção de Walter Avancini, com Dina Sfat e Jardel Filho, paralisava o Brasil das nove às dez da noite na telinha da Globo. Mas a Discoteca do Chacrinha, na Tupi, também gozava de grande audiência.

No dia seguinte da última vitória do Flamengo sobre o Atlético, Geisel decretou o bloqueio da alta dos preços, sob a supervisão de Conselho Interministerial, com o objetivo de controlar a inflação, que atingira 35% ao ano, praticamente determinando o começo do fim do chamado “milagre brasileiro”, período de aparente desenvolvimento, vigente desde a década de 1960, e atropelado pelo aumento – pela OPEP – do barril de petróleo em até 400% a partir de 1973, desestabilizando a economia mundial.

Nos Estados Unidos, Richard Nixon ainda não havia sido arrancado da presidência da República por seu envolvimento no Caso Watergate. A França tentava se recuperar da morte prematura de Georges Pompidou, ocorrida em 2 de abril, e em Portugal já estava criado o clima para a derrubada da ditadura salazarista, ocorrida no dia 25. Na África do Sul, o Partido Nacional, no poder desde 1948, praticava a política de apartheid, e no Irã, então aliado dos norte-americanos, que distribuía as cartas era o Xá Reza Pahlevi, varridos cinco anos mais tarde pela Revolução Islâmica. Na vizinha Argentina, Juan Domingo Perón voltara ao país após quase 20 anos no exílio, e iniciava campanha para regressar à presidência.

Voltando ao Brasil, e a Curitiba, onde houve a tal última vitória pelo Brasileiro, é interessante lembrar que Jaime Lerner era o prefeito da cidade, e que Emílio Hoffman Gomes governava o Paraná, ambos da Arena, a Aliança Renovadora Nacional, de sustentação da ditadura. O bipartidarismo continuava vigente, e o MDB, Movimento Democrático Brasileiro, representava oposição de quase fantasia, dado que desafiar a ditadura não era, digamos, muito aconselhável.

TV por assinatura, celular e internet, em abril de 1974, não passavam de miragens. O próprio computador não passava de um bicho de sete cabeças. Diante de tudo isso, desse mundo perdido no tempo e no espaço, vocês não acham que está na hora de voltar a vencer, pelo Brasileiro, o Atlético no Paraná?

Jogos em outras competições desde 1974

(veja os jogos do Brasileiro em detalhes no retrospecto publicado no site)

– 22/5/94 – Flamengo 0 x 1 Atlético – Amistoso – Joaquim Américo

– 19/7/98 – Flamengo 1 x 0 Atlético – Amistoso – Pinheirão

– 24/8/11 – Flamengo 1 x 0 Atlético – Copa Sul-Americana – Joaquim Américo

– 26/4/17 – Flamengo 1 x 2 Atlético – Copa Libertadores – Joaquim Américo